“ - Mas afinal, qual o propósito disso? Qual a utilidade de um monte de projeto louco que nunca vai ser construído? O que eles queriam com isso?, indigna-se o estudante com uma leve empáfia, quando o professor termina de mostrar uns slides do Peter Cook.
- Cara, - eu me atravesso, antes do professor ter chance de comentar qualquer coisa – você por acaso já ouviu falar do Pompidou em Paris? Aquele, desenhado pelo Renzo Piano e pelo Richard Rogers? Um dos mais revolucionários e queridos centros culturais do mundo? Então. Aquele edifício é filho desses ‘projetos loucos’ aí. Agora, qual era mesmo a tua pergunta?
- Calma, Juliana! Não precisa se estressar… parece até que tô falando do teu pai, ou algo assim!
E a sala de aula cai em risadas.”
Essa é uma das fotografias-memoriais que trago comigo do primeiro ano de faculdade. E ela foi batida, e eu a guardo tão bem, porque o meu colega conseguiu descrever com uma precisão única o meu sentimento passional pelo Archigram e por toda sorte de malucos que se deixou influenciar por eles. É amor mesmo. É coisa cega, meio acrítica, confesso. Então é necessário ler o que eu tenho a dizer com uma certa cautela. Porque, de certa forma, Peter Cook e os outros seis doidões têm sim uma culpa no cartório da minha “paternidade intelectual”.
É fácil, pra qualquer pessoa que curta rock e quadrinhos, se deixar seduzir pelo Archigram. Basta dar um Google nos caras e pululam imagens coloridonas na tela, naquele esquema pop-art. Alguns, numa tentativa de resumir o conceito do grupo, arriscam dizer que eles são os “Beatles da arquitetura”. E a analogia parece servir, até certo ponto. Ambos foram além das bordas, exploraram imaginários, desafiaram conceitos vigentes, enfim. Pra quem tá entrando no curso de Arquitetura e conhecendo o Archigram pela primeira vez, é um maravilhamento total. E isso, pra mim, aconteceu em 2003.
Mas, se os Beatles foram lá revolucionários e vanguardistas nos anos 60, nos anos 2000 eles não passavam de senso-comum. E a analogia seguiu valendo pro Archigram. Continuei o resto da faculdade achando que eles eram somente uma alegoria do futuro do pretérito. Sem muita força conceitual pra me inspirarem além de ‘projetos loucos’, frases de impacto e pranchas cheias de colagens. Isso foi até 2008.
E eis que um dia recebo de presente do meu primo, que atualmente mora na Alemanha, um livrinho do tamanho de um CD, mas com a grossura de um álbum quádruplo. Era um “guia” com a história do Archigram. E, com o perdão do clichê, me apaixonei novamente, “como se fosse a primeira vez”.
Às vésperas de começar a pensar meu Trabalho de Conclusão de Curso, uma frase foi incisiva nesse início de processo: “Quando você está procurando uma solução para algo que lhe foi dito como problema arquitetônico – lembre-se: pode não ser um edifício”.
E foi através do “álbum quádruplo” do Archigram que tive acesso à teoria do grupo, que me fez “comprovar” minhas próprias ideias e pensamentos. Tipo um filho, que reconhece seu pai. E, contando com o sentimento de segurança que um pai propicia, fui em frente no TCC, sem medo de que meu projeto, um pouco imaginativo e não-convencional, fosse rejeitado. Afinal, na minha concepção, é pra isso que família serve, pra te dar algum senso de pertencimento no mundo.
E é nesse sentido que sim, colega, falar do Peter Cook é tipo falar do meu pai. Mas tudo bem, porque, afinal, nem os pais são mesmo perfeitos.
Juju.



