A incalculável área em que se cabe

Postado em por | Arquivado em: Arquitetura, Nimbu.

É… o mundo está mudando.

Cada vez mais usamos prefixos “trans”, “pós” e – porque não? –“entre” para falar sobre nossas áreas de atuação profissional. Muito difícil definir essas tais áreas se nos interessamos por tantos assuntos e nos vemos capazes de realizar trabalhos legais com tanta gente diferente.

Passei muito tempo acreditando que essa angústia dos arquitetos (os que realmente questionam alguma coisa, não só enchem os bolsos de grana em mega-construtoras) nascia em contrapartida a essa “arquitetura-produto” difundida pelas revistinhas bagaceiras – essa é a hora em que você vai ao fim do post ver que quem escreve isso é a “bicho-grilo” do grupo que mora na costa da lagoa!

Entrei tanto nessa paranóia, que passei 1 ano da minha vida (TCC) escrevendo, pintando, dançando, tocando (e o que mais vocês que são legais considerem que é arquitetura também) acerca desse tema: o produto. A arquitetura vista pelo senso comum como um produto acabado, entregue pelo seu “fornecedor arquiteto” com o objetivo de suprir um desejo ou necessidade.

Tais ideias me deixavam enlouquecida: como pode o mercado desconsiderar que o nosso “material” de investigação, o espaço, é constantemente produzido no decorrer do seu uso? Como podem as pessoas comprar idéias do que significa habitar com qualidade por um catálogo de imagens? Por que existe um mundo que quer que eu decida por ele como viver?

Pois, já que trabalhei nesse mercado por 10 anos de minha humilde vidinha, tendo visto muita gente construir porcarias em Jurerê Internacional (praia da burguesia florianopolitana) e juntar fachada de revista com planta mal-resolvida, achei que essa pudesse ser a causa da minha angústia com essa tal palavra “arquitetura”.

No entanto, hoje, seguindo um caminho mais livre, voltado para que o quero de fato colocar no mundo, vejo que toda essa angústia que faz com que tantos arquitetos se tornem também grandes músicos, escritores, atores etc (e muitas vezes abandonem o rótulo de “Arquiteto”), não nasce de uma revolta com esse mercado imbecil aí instaurado, mas da maravilha de possibilidades de interação que a idéia de arquitetura nos apresenta. A verdade é que tenho um baita orgulho de ser arquiteta e de enxergar nisso possibilidades de interação entre a arte e o cotidiano, separação burra que o pensamento moderno cravou na humanidade.

Esse grupo nasceu numa faculdade de arquitetura, ela é o que nos une e o que nos permite ser tão diferentes. Partimos das experiências individuais e coletivas já realizadas. Cenografia, design, arte-instalação, fotografia, produção, direção de arte, ciberespaço, comunicação visual, vídeo, são muitas as áreas de interesse e é difícil escrever um “sobre nós”, porque nós nascemos dessa sopa criativa maravilhosa e não-homogênea.

Talvez o que mais fale “about us” seja aquilo que já produzimos ou que estamos produzindo: a vontade de não ser em vão, de fazer um trabalho criativo e comprometido com os nossos valores.

Ceci.

PS da Juju: A imagem do post é uma foto de Mila Petrillo, do espetáculo “Enter Remmimx”, da Cia Étnica de Dança do Rio de Janeiro. O espetáculo é uma livre interpretação do conceito de Parangolé, de Hélio Oiticica. Mais informações: http://www.teatrovilavelha.com.br/festivalvivadanca/?p=146

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