Sobre cinema e urbanismo

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Crash, filme de Paul Haggis, lançado em 2005, chamou muita atenção à época. Indicado a vários prêmios, e vencedor de muitas dessas indicações, o filme levou um enorme público ao cinema – principalmente pelo aspecto do roteiro, de várias tramas dramáticas e violentas que se entrelaçam. Mas a grande sacada do filme, na minha opinião, é algo que nem todos percebem – a escolha de uma “protagonista tácita”, a cidade de Los Angeles.

Foi por esse motivo que tivemos que rever Crash na disciplina de Teoria Urbana III, dessa vez, com olhos de urbanistas. O texto que se segue foi escrito em 2007, como exercício de aula. Decidi compartilhá-lo, porque gostaria de ter outras possíveis indicações de filmes com esse mesmo caráter, onde as cidades tenham protagonismo, sejam ativas na trama e não apenas um palco. Alguma dica?

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Los Angeles é uma das maiores cidades dos Estados Unidos, sendo a concentração urbana em sua área metropolitana superior a 15 milhões de habitantes. Cerca de 18% da população vive abaixo da linha da pobreza, boa parte imigrantes. O multiculturalismo é uma das características mais marcantes da metrópole, que sofre do chamado urban sprawl – a dispersão urbana. Esta dispersão transforma Los Angeles uma cidade de ‘guetos’ de brancos, negros, judeus, asiáticos, latinos e toda sorte de gente, de todas as classes sociais, interligados por autopistas e rodovias, utilizadas essencialmente pelo transporte individual. Esta configuração faz com que seus habitantes não mais se toquem, ou se encontrem, mas se colidam – idéia chave do filme.

Crash inicia e termina com um acidente de carro. O automóvel, tão substantivo na cidade, representa a alienação social, a “bolha metálica” que impede as pessoas de conviverem umas com as outras, de conhecerem e compreenderem os diferentes. As colisões nada mais são do que as extremas conseqüências disto – preconceito, intolerância, discriminação, violência.

O transporte público de Los Angeles, além de ser insuficiente para a sua crescente população, ainda parece sofrer “resistência” dos habitantes, como demonstra uma cena do filme, na qual um jovem negro pergunta ao amigo “-Você sabe por que os ônibus possuem essas grandes janelas de vidro?”, e ele mesmo responde, afirmando que é para expor os negros à humilhação do fracasso. E a trajetória do personagem no filme é a de roubar automóveis, sejam eles de brancos, asiáticos, ou até mesmo de negros em situação econômica privilegiada.

As “gafes” cometidas pela ignorância a respeito das diversas etnias também são demonstradas no filme, como o policial negro que acha que sua namorada é mexicana, pelo simples fato d’ela falar espanhol, quando, na verdade, sua origem é de outro país hispânico; ou do jovem negro que liberta escravos asiáticos e os manda para um bairro chinês, para comerem “chop suey”, chamando-os de “burros” pelo fato d’eles não compreenderem a situação. Ou então o comerciante persa, que é taxado como um “terrorista afegão” em uma loja de armas. Isto expressa bem o individualismo ao qual a sociedade de Los Angeles está submetida devido à sua configuração urbana. O diferente é classificado e enquadrado em um determinado gueto, que é espacial, e não somente étnico ou econômico, e todas as nuances e reais diferenças são simplesmente ignoradas.

A temática do automóvel no filme, além de ilustrar a segregação espacial da metrópole, poderia ser levada adiante, trazendo outras discussões no que tange ao seu uso, como o aquecimento global e a sustentabilidade do planeta. Sem dúvida, a ‘bolha-metálica’, com seu potente ar-condicionado e seu audio-system, inibe a sensibilidade de seus usuários para as insuportáveis ilhas de calor urbanas e os apelos de quem tenta alertar o mundo sobre isso.

Juliana

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