Liberdade através da arte

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Liberdade através da arte” retrata uma inscrição descoberta em 2006 no muro de uma ruela da região central de Florianópolis, ao lado de outros rabiscos e desenhos. Acanhada, rabiscada de forma rápida, sem assinatura, sem dono. Tornada pública:

Na nossa sociedade do controle – em todos os níveis possíveis -, “liberdade” é uma palavra que  soa cada vez mais distante. Substituímos (ou deixamos que substituam) nossa liberdade pela comodidade da opção de escolha. Nunca tivemos tantas opções de escolha – e, ao mesmo tempo, nossa liberdade tão cerceada. Somos livres e estimulados a consumir as opções que mais nos agradam: somos consumidores identificados através de números que nos “tornam iguais” e incessantemente nos forçam a provar quem somos: o do RG, do CPF, da carteira de trabalho, da conta bancária, do cartão de crédito… Sob os olhos do sistema vigente, esses números formam e são nossa identidade. Nada mais equivocado; afinal, uma pessoa não possui uma única identidade, mas uma multiplicidade delas, responsáveis por formar seu caráter.

Tal qual a cidade.

Difícil acreditar que a cidade tenha uma única identidade; ou em discursos que preguem a invenção de uma identidade como solução dos problemas urbanísticos ou sociais. No medir de forças entre local e global dos fragmentados tempos atuais, que resulta na proliferação de simulacros movidos pelo capital de consumo – ou, utilizando as palavras de Felix Guattari, pelo Capital Mundial Integrado -, as amarras que o ser humano conformado constrói, para se agarrar a algum passado que não existiu mas que se quer presente, são tão perigosas quanto a ausência de compromisso com o futuro.

A fascinação de Kublai Khan com os relatos de Marco Pólo, no romance “As Cidades Invisíveis”, do escritor Ítalo Calvino, não se dá pelo conhecimento da vasta dimensão dos domínios territoriais do imperador, mas através das diferenças descobertas em cada lugar. Talvez, todas as cidades descritas sejam uma só; a identidade formada pela multiplicidade.

E é esta multiplicidade que toma forma em cada pessoa e cidade, que talvez tenha feito Winston Smith não sucumbir ao controle do aparelho de captura do Estado no romance 1984, de George Orwell; e talvez seja ela que nos permita enfrentar nossa sociedade do controle, não o negando ou admitindo esta impossibilidade, mas impedindo que ele nos domine por completo, ao menos por instantes. Nos ajudando a construir espaços possíveis, com possibilidades de fuga, lampejos de liberdade – mas não o conceito de liberdade vendido na figura de objetos de consumo; conceito-consumo, tão impregnado nos imaginários individuais.

E talvez seja nessas possibilidades de se retomar a liberdade – desejo, não consumo -,  intrínseca à paisagem cultural da cidade, e que nos é roubada pelos mesmos agentes que nos oferecem a pseudoliberdade; que a Arte Pública tenha seu importante papel, como uma máquina de guerra a favor da retomada da cidade como o lugar histórico das trocas, do desejo, da vivência, da coletividade; pensando criticamente e reinventando o cotidiano, trabalhando na construção de novos referenciais urbanos e humanizando a cidade e seus cidadãos. (Texto e imagens com base na pesquisa da dissertação de mestrado do autor.)

Guilherme [Tela].

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